Os estudos sobre a governação pública têm-se destacado pelo seu impacto no bem-estar social e no desenvolvimento econômico dos países (Bilhim, 2017). Ao longo da sua evolução histórica, a Administração Pública tem sido moldada por sucessivas reformas orientadas para a modernização do Estado (Secchi, 2009), originando a emergência e a adaptação de diversos modelos de governação (Bilhim, 2013). A literatura especializada destaca, entre outros, três modelos: o modelo burocrático tradicional, o modelo gerencial e o modelo pós-gestionário (Bilhim, 2013; Secchi, 2009).
O modelo burocrático caracteriza-se pela formalidade dos procedimentos, pela impessoalidade nas relações funcionais e pela prevalência da rigidez organizacional, frequentemente associada à morosidade e à ineficiência administrativa (Secchi, 2009). O modelo gerencial introduz práticas oriundas da gestão privada, orientadas para a eficiência, a eficácia e a responsabilização por resultados (Bilhim, 2013). Já o modelo pós-gestionário valoriza a cooperação entre o setor público, o setor privado e a sociedade civil, promovendo a participação dos cidadãos e a criação de parcerias interinstitucionais (Secchi, 2009). Estes modelos não se sucedem de forma linear, coexistindo frequentemente no contexto atual da Administração Pública, o que contribui para a complexidade dos processos de governação (Aristovnik et al., 2022; Salm & Menegasso, 2009). É neste cenário híbrido que se inscreve a articulação entre fenômenos como o red tape e o engajamento dos servidores públicos.
O red tape corresponde a regulamentações e procedimentos percebidos como excessivos ou disfuncionais, que impõem encargos administrativos sem contribuir para os objetivos do serviço público (Quratulain & Khan, 2015). Por sua vez, o engajamento traduz-se num conjunto de comportamentos associados ao desempenho positivo, à motivação intrínseca e ao bem-estar dos trabalhadores (Rich et al., 2010). Apesar de emergirem de dinâmicas distintas, estas duas dimensões coexistem no setor público e interagem de forma complexa (Aristovnik et al., 2022; Borst et al., 2019; Bozeman, 1993; Salm & Menegasso, 2009).
A literatura recente aponta para o impacto negativo do red tape na disponibilidade dos recursos de trabalho e, consequentemente, no nível de engajamento dos servidores (Borst, 2018). Por outro lado, o engajamento está associado a efeitos positivos sobre a produtividade, o desempenho e a satisfação profissional (Bakker, 2015; Borst et al., 2019). A compreensão destas relações tem sido objeto de crescente atenção no campo da Administração Pública (Mussagulova, 2021; Jiang et al., 2023).
Observa-se uma preocupação recorrente na literatura: a de que, embora o engajamento tenha sido amplamente estudado no setor privado, o seu aprofundamento no setor público permanece insuficiente (Borst et al., 2020; Borst et al., 2019; Pinder, 2008). Acresce que a influência do red tape sobre os recursos de trabalho é ainda pouco explorada de forma empírica, particularmente em contextos públicos específicos (Mussagulova, 2021; Jiang et al., 2023). Compreender estas dinâmicas representa uma grande oportunidade na busca de contribuir com a realidade organizacional de um organismo público estratégico (Bakker & Albrecht, 2018; Bakker & Demerouti, 2017; Gross et al., 2019).